Israel, a profecia e a raiz que nos sustenta

Introdução

Em 14 de maio de 1948, David Ben-Gurion proclamou, em Tel Aviv, a independência do Estado de Israel. Para muitos, aquela data representa apenas um marco político do século 20. Para outros, seria o cumprimento direto de antigas profecias bíblicas. Mas, para quem deseja ler a Bíblia com reverência, equilíbrio e fidelidade, a questão exige mais cuidado.

Não podemos tratar Israel como se fosse um detalhe qualquer da história. Também não devemos transformar cada acontecimento geopolítico envolvendo o Estado moderno de Israel em cumprimento automático da profecia bíblica. A Escritura nos chama para um caminho mais profundo, que reconhece a importância de Israel, mas mantém Cristo no centro da revelação e da esperança profética.

Israel importa. O povo judeu importa. A história da aliança importa. A terra bíblica importa. No entanto, o centro da profecia não é uma nação moderna, um governo terreno ou uma fronteira geopolítica. O centro da profecia bíblica é Jesus Cristo, o Messias de Israel e Salvador do mundo.

Israel não é uma nação qualquer na Bíblia

Israel não aparece nas Escrituras como uma nação comum entre outras nações. Sua história bíblica começa com o chamado de Abraão, quando Deus o tirou de Ur dos caldeus e lhe fez uma promessa que envolvia descendência, terra e bênção. O Senhor declarou: “Em você serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12:3).

Desde o princípio, portanto, a eleição de Israel nunca foi um privilégio fechado em si mesmo. Deus não chamou Abraão apenas para formar uma etnia, preservar uma cultura ou estabelecer uma identidade nacional. Deus chamou Abraão para iniciar uma história de redenção, por meio da qual todas as famílias da terra seriam alcançadas pela bênção divina.

Israel foi chamado para revelar o caráter de Deus, preservar Sua Palavra, testemunhar Sua santidade e preparar o caminho para a vinda do Messias. Por isso, desprezar Israel é desprezar a própria história da revelação bíblica. A fé cristã não nasce no vazio. Ela nasce dentro de uma história que Deus conduziu por meio de um povo, de uma aliança e de uma promessa.

A criação, a queda, a promessa, a aliança, o santuário, o sacerdócio, os sacrifícios, o sábado, a lei, os profetas, o juízo, a esperança messiânica e a expectativa da nova criação chegam até nós por meio das Escrituras de Israel. O cristianismo não nasceu em Roma, Atenas, Genebra ou Wittenberg. A fé cristã nasceu no solo da revelação dada a Israel.

Jesus era judeu. Maria era judia. Os apóstolos eram judeus. A Bíblia dos primeiros cristãos era o Antigo Testamento. A esperança messiânica era esperança de Israel. A própria palavra “Cristo” carrega o sentido do Messias prometido nas Escrituras hebraicas.

Por isso, nenhum cristão deveria falar do povo judeu com desprezo. A fé cristã tem raiz, e essa raiz passa por Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, Davi, os profetas e chega ao Messias. Desconsiderar essa raiz é empobrecer a própria compreensão do evangelho.

A igreja não substitui Israel como descarte

Um dos grandes erros da história cristã foi falar de Israel como se Deus tivesse simplesmente rejeitado os judeus e colocado a igreja no lugar deles como uma substituição fria, definitiva e arrogante. Esse tipo de leitura alimentou desprezo, soberba religiosa e, em muitos momentos da história, perseguição contra o povo judeu.

Paulo não permite esse tipo de atitude. Em Romanos 11, o apóstolo usa a imagem da oliveira. Alguns ramos naturais foram quebrados por incredulidade, e gentios foram enxertados pela fé. Mas, ao falar aos gentios, Paulo faz uma advertência direta: “Não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz a ti” (Rm 11:18).

Essa frase deveria humilhar toda arrogância cristã contra os judeus. A igreja não é uma árvore nova plantada no lugar de Israel, como se a história anterior tivesse sido arrancada e jogada fora. A igreja é ramo enxertado na oliveira da aliança. Ela participa da promessa, mas não sustenta a raiz. Ela é sustentada por ela.

Isso significa que existe continuidade entre Israel e a igreja. Mas essa continuidade precisa ser entendida corretamente. A igreja não continua Israel por meio de etnia, nacionalismo religioso ou dependência de um Estado moderno. A igreja continua Israel em Cristo, o Messias de Israel.

Essa continuidade é pactual, messiânica, espiritual e missionária. Em Cristo, judeus e gentios são chamados a participar da mesma promessa feita a Abraão. Por isso, Paulo pôde afirmar: “E, se vocês são de Cristo, são também descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa” (Gl 3:29).

Essa declaração não apaga Israel. Pelo contrário, mostra que a promessa feita a Israel alcança sua plenitude em Cristo. O gentio não entra na aliança desprezando Israel, mas sendo enxertado na história que Deus começou com Israel. O judeu, por sua vez, não é salvo por mera descendência biológica, mas pela fé no Messias prometido.

Aqui está o equilíbrio bíblico. Não há espaço para arrogância gentílica. Não há espaço para desprezo pelos judeus. Não há salvação automática pela etnia. Também não há autorização para deslocar Cristo do centro. Há uma única oliveira da aliança, uma única esperança messiânica e um único Salvador.

O Estado moderno de Israel e a profecia bíblica

Esse equilíbrio nos ajuda a olhar para 1948 com maturidade. O nascimento do Estado moderno de Israel é um fato histórico de enorme importância. Depois de séculos de diáspora, perseguições, pogroms e, especialmente, depois do horror do Holocausto, a criação de um Estado judeu se tornou um marco incontornável na história contemporânea.

Não se pode falar dessa data com frieza. Para milhões de judeus, 1948 representou sobrevivência, reconstrução, memória e esperança nacional. Um cristão pode reconhecer nisso a providência de Deus preservando o povo judeu na história. Pode reconhecer a ligação ancestral entre os judeus e a terra de Israel. Pode defender o direito de existência do povo judeu. Pode olhar para essa data com respeito e sensibilidade.

Mas isso é diferente de dizer que 14 de maio de 1948 seja, de modo automático e direto, o cumprimento final das profecias bíblicas sobre Israel. Aqui precisamos ter cuidado. Muitas profecias de restauração de Israel no Antigo Testamento não falam apenas de retorno territorial. Elas falam de arrependimento, purificação, renovação espiritual, fidelidade à aliança, derramamento do Espírito e governo messiânico.

Em Ezequiel 36, Deus promete reunir Seu povo, mas o centro da promessa não é meramente geográfico. O centro é espiritual: “Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vocês espírito novo” (Ez 36:26). Em Ezequiel 37, a visão do vale de ossos secos fala de restauração, mas novamente o clímax é a ação vivificadora do Espírito: “Porei em vocês o meu Espírito, e vocês viverão” (Ez 37:14).

Portanto, reduzir essas profecias a uma declaração política moderna é empobrecer o texto bíblico. A restauração prometida pelos profetas é mais profunda do que mapa, bandeira, fronteira e governo. Ela envolve vida espiritual, aliança renovada e esperança messiânica.

O Estado moderno de Israel pode ser visto como um acontecimento histórico significativo, talvez até providencial no sentido amplo da preservação do povo judeu. Contudo, ele não deve ser transformado apressadamente no centro da escatologia bíblica, como se toda a profecia dependesse da geopolítica do Oriente Médio.

Jesus desloca o foco para a missão mundial

Depois da ressurreição, os discípulos fizeram a Jesus uma pergunta carregada de expectativa nacional: “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?” (At 1:6). A pergunta era compreensível. Eles conheciam as promessas proféticas, sabiam da esperança de restauração e esperavam a intervenção final de Deus na história.

A resposta de Jesus, porém, é decisiva: “Não compete a vocês conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade. Mas vocês receberão poder, ao descer sobre vocês o Espírito Santo, e serão minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra” (At 1:7,8).

Jesus não ridiculariza a pergunta, mas muda o foco. O centro da missão apostólica não seria a especulação sobre tempos nacionais, mas o poder do Espírito Santo e o testemunho mundial. A missão sairia de Jerusalém, passaria pela Judeia e Samaria e alcançaria os confins da terra.

Isso não anula Israel. Pelo contrário, mostra que a bênção prometida a Abraão finalmente alcançaria todas as famílias da terra. A promessa feita a Israel se expande em missão global. A esperança de Israel não desaparece. Ela se cumpre no Messias e transborda para o mundo.

A profecia bíblica não termina em Tel Aviv

Na leitura bíblica adventista, as grandes profecias de Daniel e Apocalipse não têm como eixo final a geopolítica do Oriente Médio, mas o conflito entre Cristo e Satanás, a fidelidade à Palavra de Deus, o santuário celestial, o juízo, a adoração verdadeira, a lei de Deus, o sábado, as três mensagens angélicas e a volta de Jesus.

Isso não significa ignorar Israel. Significa colocar Israel dentro do plano bíblico maior. O Apocalipse usa linguagem profundamente israelita. Ele fala de tribos, templo, altar, Cordeiro, Sião, Babilônia, sacerdócio, mandamentos e Nova Jerusalém. Mas esses símbolos são aplicados ao povo de Deus em escala mundial, formado por judeus e gentios fiéis ao Cordeiro.

João descreve o povo final de Deus com estas palavras: “Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus” (Ap 14:12). O foco final não é a etnia em si mesma. É a fidelidade ao Cordeiro. Não é a negação de Israel, mas o cumprimento da esperança de Israel em Cristo.

Por isso, a profecia bíblica não pode ser reduzida a manchetes internacionais. Ela não existe para alimentar especulação, medo ou sensacionalismo. A profecia existe para conduzir o povo de Deus à fidelidade, à adoração verdadeira e à preparação para a volta de Cristo.

Romanos 11 ainda precisa ser levado a sério

Há cristãos que erram ao transformar o Estado moderno de Israel no centro da profecia final. Mas há outros que erram ao falar do povo judeu como se ele não tivesse mais nenhuma importância na história de Deus. Paulo não permite nenhum desses extremos.

Em Romanos 11, ele afirma que houve endurecimento em parte de Israel, mas também fala de esperança, misericórdia e possibilidade de enxerto novamente. O apóstolo não autoriza desprezo. Não autoriza soberba. Não autoriza antissemitismo teológico.

O cristão gentio deve lembrar que entrou numa história que não começou com ele. A igreja deve evangelizar judeus e gentios com amor, humildade e fidelidade bíblica. Não com desprezo. Não com superioridade. Não com arrogância histórica.

A mensagem cristã aos judeus não deve ser: “vocês foram descartados”. A mensagem cristã aos judeus deve ser: “o Messias prometido a Israel veio, morreu, ressuscitou e chama todos, judeus e gentios, para a salvação”.

A igreja não deve negar sua raiz israelita. Também não deve transformar a raiz em substituta do fruto final. A raiz sustenta a árvore, mas a plenitude da árvore está em Cristo.

A Nova Jerusalém é o destino da promessa

A Bíblia não termina com a fundação de um Estado moderno. Também não termina com a perda da importância de Israel. A Bíblia termina com a Nova Jerusalém. João declara: “Vi também a cidade santa, a Nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus” (Ap 21:2).

Essa imagem é maravilhosa porque une continuidade e consumação. Jerusalém permanece como símbolo da esperança bíblica, mas agora aparece como Nova Jerusalém, não limitada a uma geografia terrena. Ela desce do céu, da parte de Deus, como morada final dos redimidos.

Ali estão cumpridas as promessas feitas a Abraão. Ali está consumada a esperança dos profetas. Ali está o povo de Deus formado por todas as nações, tribos, povos e línguas. Ali está o Cordeiro. Ali Deus habita com os seres humanos.

“Eis o tabernáculo de Deus com os seres humanos. Deus habitará com eles” (Ap 21:3). Esse é o fim da história bíblica. Não é a substituição arrogante de Israel. Não é a absolutização de um Estado moderno. É a consumação da aliança em Cristo.

Conclusão

O nascimento do Estado de Israel em 14 de maio de 1948 deve ser lembrado com respeito. Ele representa um marco histórico profundo para o povo judeu e para o mundo. Não deve ser tratado com indiferença, ironia ou desprezo.

Ao mesmo tempo, o cristão precisa resistir à tentação de transformar automaticamente esse acontecimento em cumprimento direto e final da profecia bíblica. A Bíblia é mais profunda do que isso. A história da redenção é maior do que a geopolítica. A esperança profética é mais ampla do que qualquer Estado terreno.

Israel é raiz, não detalhe. Os judeus devem ser respeitados, não desprezados. A igreja é continuidade, não ruptura absoluta. Mas essa continuidade só pode ser compreendida corretamente em Cristo.

A igreja não substitui Israel como quem descarta um povo antigo. A igreja é enxertada na oliveira da aliança. Ela participa da promessa feita a Abraão porque está unida ao Messias de Israel.

Por isso, em 14 de maio, o cristão pode olhar para Israel com respeito histórico, para o povo judeu com amor e para as profecias com reverência. Mas deve olhar, acima de tudo, para Jesus.

Porque a Bíblia não termina com uma bandeira erguida em Tel Aviv. Ela termina com o Cordeiro no centro da Nova Jerusalém. E é para Ele que toda profecia aponta.


Julio Cesar Ribeiro é teólogo, pastor e professor. Possui graduação em Teologia, Especialização em Teologia Bíblica, Mestrado em Teologia Bíblica, Mestrado em Teologia Cristã e atualmente cursa programa de Doutorado em Teologia Bíblica.

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