
Introdução
Os versículos 31 e 32 do capítulo 12 do Evangelho de João representam um ponto de inflexão na teologia joanina da cruz. Ao anunciar que “chegou o momento de este mundo ser julgado, e agora o seu príncipe será expulso” (Jo 12:31, NAA) e, em seguida, afirmar que “e eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim.” (Jo 12:32, NAA), Jesus revela simultaneamente a derrota de Satanás e a sua própria exaltação. Paradoxalmente, o símbolo da serpente, frequentemente associado ao mal desde Gênesis 3, é reinterpretado como símbolo de salvação (cf. Nm 21:9; Jo 3:14). Assim, João articula duas serpentes: a serpente caída e condenada (imagem de Satanás) e a serpente levantada (figura de Cristo crucificado).
O intuito aqui é demonstrar que João 12:31-32 estabelece um duplo contraste tipológico entre Satanás e Cristo, ambos descritos sob o signo da serpente, mas em sentidos opostos: o primeiro, expulso; o segundo, exaltado. A análise parte de uma leitura exegética dos termos gregos, do contexto literário joanino e da teologia bíblica da serpente como símbolo de juízo e redenção.
Contexto literário e teológico de João 12:20-36
O trecho em que aparecem os versículos 31 e 32 insere-se na chamada “hora” de Jesus (cf. Jo 12:23). A crucificação é apresentada, paradoxalmente, como glorificação, um tema recorrente em João (cf. 7:39; 13:31-32; 17:1). Essa hora coincide com a derrota do “príncipe deste mundo” (ὁ ἄρχων τοῦ κόσμου τούτου, ho archōn tou kosmou toutou), expressão que João repete em 14:30 e 16:11, sempre associando-a à expulsão e condenação de Satanás.
No fluxo narrativo, o “julgamento” (κρίσις, krisis) deste mundo e a “expulsão” (ἐκβληθήσεται, ekblēthēsetai) do príncipe das trevas são o reverso da exaltação (ὑψωθῶ, hypsōthō, “ser levantado”) do Filho do Homem. O verbo ὑψόω (hypsóō, “levantar”), usado no verso 32, é um duplo símbolo: significa tanto elevação física na cruz quanto exaltação divina (cf. Jo 3:14; 8:28; Is 52:13 LXX). Assim, João propõe uma teologia da inversão: a cruz é o trono, o suplício é a glória, a morte é o julgamento do inimigo.
A serpente expurgada: João 12:31 e Apocalipse 12:9
A expressão “príncipe deste mundo” evoca a autoridade satânica sobre o sistema humano corrompido (κόσμος, kosmos). O verbo “será expulso” (ἐκβληθήσεται ἔξω, ekblēthēsetai exō) remete a uma ação definitiva, de caráter escatológico e judicial. A mesma raiz verbal (ἐκβάλλω, ekballō) aparece em João 2:15 (quando Jesus expulsa os cambistas do templo), sugerindo uma purificação cósmica: a cruz é o novo ato de limpeza do universo.
Essa “expulsão” tem paralelo notável em Apocalipse 12:9 (NAA): “e foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás” (καὶ ἐβλήθη ὁ δράκων ὁ μέγας, ὁ ὄφις ὁ ἀρχαῖος, kai eblēthē ho drakōn ho megas, ho ophis ho archaios). A coincidência lexical e temática (expulsão, juízo, serpente, queda) revela a unidade teológica entre os dois escritos joaninos: o Calvário é o campo de batalha onde o dragão é vencido. Como observa G. Beasley-Murray (John, WBC, p. 211), a cruz é o “Dia D” do conflito cósmico, antecipando o juízo final.
A “antiga serpente” (ὁ ὄφις ὁ ἀρχαῖος, ho ophis ho archaios) representa o poder da mentira e da morte inaugurado no Éden (Gn 3:1-15). Sua expulsão na cruz significa que a humanidade, antes sujeita ao engano, agora encontra libertação no Cristo crucificado (cf. Hb 2:14-15). Assim, João 12:31 descreve a queda da serpente satânica.
A serpente exaltada: João 12:32 e a tipologia de Números 21:9
No versículo seguinte (Jo 12:32), a imagem se inverte: “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo.” O verbo ὑψωθῶ (hypsōthō, “levantar”) é o mesmo usado em João 3:14: “Assim como Moisés levantou (ὕψωσεν, hypsōsen) a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado.” O paralelo é explícito: o Cristo crucificado é a serpente de bronze erguida por Moisés.
Em Números 21:8-9, o povo, após murmurar contra Deus, foi ferido por serpentes ardentes (נְחָשִׁים שְׂרָפִים, nehashîm serafîm). Para que houvesse cura, Moisés foi instruído a levantar uma serpente de bronze (נְחַשׁ נְחֹשֶׁת, nehash nehoshet), cujo olhar trazia salvação. A imagem é paradoxal: o mesmo símbolo que representava a causa da morte torna-se o instrumento de vida. Em João, o mesmo ocorre: o Cristo, assumindo sobre si o pecado (2Co 5:21), é figurado como a serpente levantada, não por ser maligno, mas por carregar a maldição (Gl 3:13).
Como nota Raymond E. Brown (The Gospel According to John, AB, p. 475), a tipologia joanina não deifica o símbolo da serpente, mas o redime: “o instrumento da morte se torna o meio da cura”. A cruz é a serpente de bronze do novo êxodo espiritual.
Duas serpentes, dois destinos: expulsão e exaltação
O contraste entre João 12:31 e 12:32 pode ser sintetizado assim:
- No primeiro, Satanás é lançado fora (ἐκβληθήσεται ἔξω, ekblēthēsetai exō); no segundo, Cristo é levantado (ὑψωθῶ, hypsōthō).
- O movimento da serpente do mal é para baixo; o movimento da serpente da salvação é para cima.
- A expulsão representa o juízo (κρίσις, krisis); a elevação, a glória (δόξα, doxa).
- O verbo da condenação é ἐκβάλλω (ekballō); o verbo da redenção é ὑψόω (hypsóō).
A simetria não é acidental, mas intencional. João utiliza o mesmo campo semântico (expulsar / elevar) para mostrar que o ato redentor de Cristo é, ao mesmo tempo, destrutivo e construtivo: destrói o domínio de Satanás e constrói o caminho da salvação. A serpente do mal é expulsa; a serpente da salvação é levantada.
| Tema | Jo 12:31 | Jo 12:32 |
|---|---|---|
| Personagem: | Satanás | Cristo |
| Símbolo: | Antiga serpente (Ap 12:9) | Serpente levantada (Nm 21:9) |
| Ação: | Expulsão | Exaltação |
| Resultado: | Juízo | Atração |
| Movimento: | Para fora (ekblēthēsetai exō) | Para cima (hypsōthō) |
| Efeito: | Derrota do mal | Salvação universal |
Implicações teológicas e soteriológicas
A dupla referência à serpente revela a economia da redenção em termos de substituição e vitória. O juízo sobre Satanás é o reverso da salvação em Cristo. O Evangelho de João une os conceitos de julgamento (κρίσις, krisis), glória (δόξα, doxa) e exaltação (ὕψωσις, hypsōsis): na cruz, o julgamento se realiza, a glória se manifesta e a atração se universaliza.
O “atrair todos a mim mesmo” (πάντας ἑλκύσω πρὸς ἐμαυτόν, pantas helkysō pros emauton) não implica universalismo soteriológico, mas universalidade de alcance, isto é, a cruz estende sua eficácia a judeus e gentios (cf. Jo 12:20-21). O verbo ἑλκύω (helkyō) significa “atrair”, “puxar”, “trazer com força”, é aqui usado metaforicamente para a força redentora do amor. A serpente que outrora trouxe morte a todos agora, quando redimida, traz vida a todos.
Teologicamente, João inverte o arquétipo da serpente do Gênesis. O que no Éden foi instrumento de queda, no Calvário torna-se símbolo de restauração. Assim, a narrativa joanina fecha um ciclo bíblico: a serpente que enganou Adão é vencida pela serpente que é Cristo, levantada para dar vida.
Como observa Ellen G. White (O Desejado de Todas as Nações, p. 524), “Cristo foi levantado na cruz para atrair o olhar dos que perecem. Assim como a serpente de bronze foi levantada no deserto, também Ele devia ser levantado para que todos os que cressem nEle tivessem vida eterna.” A tipologia é, portanto, pedagógica e soteriológica.
Conclusão
João 12:31-32 condensa, em dois versículos, a história cósmica da redenção: a expulsão da antiga serpente e a exaltação da serpente redentora. Em termos simbólicos, há uma inversão teológica magistral: o mesmo signo (ὄφις, ophis, “serpente”) é usado para representar a derrota do mal e a vitória do bem. O julgamento de Satanás é o prelúdio da glória de Cristo; a cruz é, simultaneamente, trono e tribunal.
Assim, o Evangelho de João apresenta a cruz como o ponto de interseção entre expulsão e atração, condenação e graça, serpente e Salvador. O mal é lançado fora (ἐκβληθήσεται ἔξω, ekblēthēsetai exō); o amor é elevado (ὑψωθῶ, hypsōthō). E, no centro da história, permanece o Cristo, o Filho do Homem levantado, que atrai a humanidade e sela a derrota definitiva da antiga serpente (ὁ ὄφις ὁ ἀρχαῖοςm, ho ophis ho archaios).
Referências bibliográficas
- Beasley-Murray, G. R. John (Word Biblical Commentary, Vol. 36). Dallas: Word Books, 1987.
- Brown, Raymond E. The Gospel According to John I–XII (Anchor Bible 29). New York: Doubleday, 1966.
- Carson, D. A. The Gospel According to John. Grand Rapids: Eerdmans, 1991.
- Köstenberger, Andreas J. John (BECNT). Grand Rapids: Baker Academic, 2004.
- White, Ellen G. O Desejado de Todas as Nações. Tatuí: CPB, 2017.
- Westcott, B. F. The Gospel According to St. John. London: John Murray, 1908.

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