Na imaginação popular, alimentada muitas vezes pelos desenhos animados, a tartaruga parece um animal curioso: ela sairia do casco, daria um passeio e depois retornaria tranquilamente ao seu abrigo. Mas a biologia revela que isso é impossível. O casco não é uma casinha portátil, mas parte do próprio corpo da tartaruga, formado pela fusão das costelas e da coluna vertebral. Separar a tartaruga de seu casco é matar a tartaruga. Essa imagem simples, porém profunda, lança luz sobre um dos debates mais persistentes da história cristã: a relação entre fé e obras, graça e lei, Antigo e Novo Testamento. Muitos tentam separá-los, como se fossem opostos irreconciliáveis; mas, na realidade, são inseparáveis, como a tartaruga e o seu casco.
Paulo escreve aos efésios que a salvação é inteiramente obra da graça (cháris) de Deus, recebida mediante a fé (pístis), “não de obras (érga), para que ninguém se glorie” (Ef 2:8-9). Esse é o coração do evangelho: não há mérito humano que nos recomende a Deus. No entanto, logo em seguida, Paulo afirma que fomos criados “para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2:10). A fé genuína, portanto, é inseparável das obras; não como causa da salvação, mas como sua consequência inevitável. O apóstolo sintetiza isso em Gálatas 5:6: “a fé que atua pelo amor.” Assim como não se pode imaginar uma tartaruga sem casco, não se pode conceber fé verdadeira sem frutos visíveis.
Tiago, longe de contradizer Paulo, reforça essa unidade. Para ele, “a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma” (Tg 2:17). Ao citar Abraão, diz que “a fé cooperou com as suas obras” e que “foi justificado pelas obras” (Tg 2:21-22). O verbo grego eteleiōthē, “foi aperfeiçoada”, indica que a fé não atinge sua maturidade senão quando se manifesta em obediência prática. Paulo combate o legalismo de quem confiava nas obras da lei para ser salvo (Rm 4:4-5; Gl 2:16), enquanto Tiago combate o nominalismo de quem reduz a fé a mero discurso vazio. Ambos, cada um contra um erro diferente, preservam a verdade de que a fé viva gera obras, assim como a vida da tartaruga se manifesta indissoluvelmente em seu casco.
A mesma lógica se aplica à graça e à lei. O termo hebraico torah significa “instrução”, e o grego nómos traduz essa ideia de revelação divina. A lei revela o pecado (Rm 3:20), mas não salva. Por isso Paulo declara: “o justo viverá pela fé” (Gl 3:11, citando Hc 2:4). No entanto, ele mesmo afirma: “Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma! Pelo contrário, confirmamos a lei” (Rm 3:31). Para Paulo, a fé não é contrária à lei, mas sua verdadeira confirmação. A graça, por sua vez, não é permissão para pecar, mas poder para obedecer: “Porque a graça de Deus se manifestou trazendo salvação… e nos ensina a renunciar à impiedade e às paixões mundanas, vivendo no presente século de forma sensata, justa e piedosa” (Tt 2:11-12). Em outras palavras, a graça não é um casco vazio, e a lei não é um corpo morto. Juntas, graça e lei, revelam a plenitude do evangelho.
Jesus mesmo declarou: “Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim revogar, mas cumprir” (Mt 5:17). O verbo plērōsai, “cumprir”, não significa abolir, mas trazer ao pleno sentido. Cristo é a encarnação da lei, a revelação viva da vontade de Deus. Por isso, dizer que a graça elimina a lei é o mesmo que afirmar que a tartaruga poderia viver sem o casco. A lei é expressão do caráter divino; a graça é a mão estendida para restaurar o pecador à harmonia com essa lei.
O mesmo raciocínio ilumina a relação entre Antigo e Novo Testamento. Muitos os veem como blocos em oposição: o Antigo seria lei e juízo; o Novo, graça e amor. Mas essa leitura não resiste ao exame bíblico. Jesus disse aos fariseus: “Examinais as Escrituras… e são elas que testificam de mim” (Jo 5:39). As Escrituras de que falava eram o Antigo Testamento. Após a ressurreição, no caminho de Emaús, Ele explicou “o que a seu respeito constava em todas as Escrituras, começando por Moisés e por todos os profetas” (Lc 24:27). O Antigo é promessa, o Novo é cumprimento; o primeiro aponta, o segundo revela; um contém sombras, o outro manifesta a realidade em Cristo (Hb 10:1). Paulo reforça essa unidade ao dizer que “tudo quanto outrora foi escrito, para nosso ensino foi escrito” (Rm 15:4). João encerra seu evangelho declarando: “Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo” (Jo 20:31). Antigo e Novo não são opostos, mas inseparáveis como casco e corpo.
Essa metáfora biológica nos ajuda a compreender que separar fé de obras, graça de lei, Antigo do Novo Testamento, é tão impossível quanto separar a tartaruga de seu casco. A fé sem obras é morta; a graça sem lei é licenciosidade; a lei sem graça é condenação; o Novo sem o Antigo é mutilação da revelação. Mas, quando unidos, revelam a plenitude da verdade: “Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e têm a fé em Jesus” (Ap 14:12). Essa síntese final do Apocalipse mostra que, no tempo do fim, Deus terá um povo marcado exatamente por essa unidade inseparável: fé e obras, graça e lei, Antigo e Novo, em harmonia perfeita em Cristo. Assim como não existe vida sem casco, também não existe cristianismo sem essa integração. O casco protege, sustenta e dá forma à tartaruga; a fé, a graça e toda a revelação bíblica se entrelaçam do mesmo modo, revelando a beleza indivisível do evangelho. É nessa inseparabilidade que se encontra a vida abundante prometida por Jesus (Jo 10:10), em quem “graça e verdade” se uniram (Jo 1:17), e em quem toda a Escritura encontra seu cumprimento (Lc 24:27).

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