A profecia é importante, a missão é urgente!

Porque a missão é maior do que o sensacionalismo

Introdução

Com a eleição do Papa Leão XIV, primeiro pontífice norte-americano da história, muitos olhos se voltaram imediatamente para Apocalipse 13. Sinais? Cumprimento profético? O decreto dominical está à porta? Embora a escatologia bíblica deva, sim, nortear nossa compreensão dos eventos mundiais, a maneira como reagimos a esses acontecimentos revela em que estamos fundamentando nossa fé: se na Palavra profética e na missão de Cristo, ou no alarme do momento. O problema não está em analisar profecias, o problema está em abandonar a missão em nome de um suposto zelo profético que, no fundo, se alimenta do sensacionalismo.

A verdade é que muitos adventistas estão mais preocupados em identificar bestas do que em salvar almas. E isso precisa ser dito com clareza, porque a missão de Cristo para Sua Igreja não é decifrar os movimentos do Vaticano nem prever cada crise política internacional, mas pregar o evangelho eterno, fazer discípulos de todas as nações e batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28:19-20; Ap 14:6-12).

A profecia é séria, mas não é um espetáculo

O Apocalipse foi escrito para encorajar os santos a perseverarem durante a perseguição e a corrupção espiritual. Em Apocalipse 13, João descreve duas bestas: a que sobe do mar e a que sobe da terra. A primeira representa, como reconhecem comentaristas históricos e a tradição adventista, o poder papal medieval, caracterizado por perseguição e blasfêmia (Ap 13:1-10). A segunda, que sobe da terra (v. 11), tem “dois chifres como de cordeiro, mas fala como dragão”, indicando um poder com aparência de liberdade e religiosidade, mas que se corrompe ao serviço da primeira besta.

A interpretação pioneira e coerente desse texto aponta para os Estados Unidos da América como essa segunda besta, surgindo em um território novo (terra em contraste com o mar, que representa nações povoadas, cf. Ap 17:15), com dois chifres representando os princípios de liberdade civil e religiosa. No entanto, esse país, segundo a profecia, formará uma imagem da besta, ou seja, repetirá a união entre igreja e estado para impor formas de culto contrárias à consciência (Ap 13:12-17).

Quando, então, um papa americano é eleito, é legítimo que os estudantes da profecia fiquem atentos. Mas há uma linha tênue entre vigilância escatológica e sensacionalismo apocalíptico. A primeira leva à consagração e urgência evangelística; o segundo, à paralisia e ao fanatismo.

O sensacionalismo como distração de Satanás

Não é novidade que o inimigo de Deus tenta, desde o Éden, desviar o foco dos filhos de Deus. No tempo do fim, uma das distrações mais eficazes é fazer os crentes trocarem a missão de salvar pessoas por debates intermináveis sobre teorias conspiratórias que não edificam. Ellen White advertiu:

“Satanás está constantemente procurando excitar o espírito do povo contra a verdade presente, introduzindo teorias que desviem a mente da obra atual.” (Evangelismo, p. 610).

E a obra atual é clara: pregar o evangelho eterno, chamar todos à adoração do Criador, denunciar Babilônia, e convidar o mundo à fidelidade a Deus. Isso envolve ação missionária, vida de oração, estudo das Escrituras, compaixão pelas almas, e foco em batizar o maior número possível de pessoas antes que a porta da graça se feche.

O sensacionalismo, por outro lado, excita, mas não converte. Inflama, mas não transforma. Cria espectadores da profecia, não discípulos do Cordeiro. É um tipo de alimento espiritual ultraprocessado: dá a sensação de estar nutrido, mas gera fraqueza e confusão.

A história se repete

A maldição das datas e das teorias vazias.

A história do adventismo já sofreu com os perigos do falso alarmismo. Desde o fracasso de 1844 até as especulações sobre o ano 2000, líderes e membros perderam credibilidade e desviaram a atenção da missão. Em muitos casos, membros se afastaram da Igreja não por rejeitarem as verdades proféticas, mas por se decepcionarem com a forma irresponsável como elas foram apresentadas.

A arqueologia nos mostra que outras culturas também usavam linguagem apocalíptica para falar de crises. Os sumérios, os babilônios e até os gregos antigos faziam uso de metáforas de bestas, dragões, terremotos e sinais celestiais. O diferencial do Apocalipse bíblico está em seu convite à esperança no Cordeiro (Ap 5:6-10), não em sua exploração do medo. A profecia não foi dada para alimentar paranoia religiosa, mas para nos preparar espiritualmente.

A missão dada por Cristo

Pregar, discipular, batizar!

A ordem final de Cristo antes de ascender foi simples e clara:

“Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os […] ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mt 28:19-20).

E a tríplice mensagem angélica de Apocalipse 14:6-12 ecoa essa ordem, chamando o mundo a adorar o Criador, sair de Babilônia e permanecer fiel aos mandamentos de Deus e à fé em Jesus.

Essa é a missão da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Toda profecia estudada, todo evento analisado, todo sermão pregado… tudo deve convergir para esse objetivo: alcançar o perdido, anunciar a salvação, batizar os que creem, preparar um povo para o encontro com o Senhor.

Pregar sobre a besta e seu número sem pregar sobre o Cordeiro é mutilar a mensagem. O poder de transformar vidas não está na exposição de Roma ou dos EUA, mas na apresentação de Jesus Cristo, o Cordeiro morto e ressuscitado, que tira o pecado do mundo (Jo 1:29).

A urgência correta

O fim está próximo… então, preguemos!

Sim, cremos que o fim está próximo. E por isso mesmo, não podemos perder tempo com distrações. O decreto dominical virá? Sim. Haverá perseguição? Sim. Mas, antes disso, o evangelho precisa ser pregado a todas as nações, e então virá o fim (Mt 24:14).

Há hoje bilhões de pessoas que nunca ouviram verdadeiramente sobre Jesus como Salvador. Há milhões de pessoas com deficiência que nunca foram alcançadas pelas igrejas. Há jovens, famílias, vizinhos nossos que estão em trevas. Como podemos ignorá-los em nome de análises políticas e rumores escatológicos que não salvam ninguém?

O tempo que passamos tentando descobrir “se o novo papa é o último” deveríamos gastar em oração, estudo, visitação, pequenos grupos, plantio de igrejas, discipulado. Precisamos ser como os discípulos após o Pentecostes, cheios do Espírito e tomados por uma missão: ganhar almas para o Reino.

Conclusão

Entre os códigos e a cruz, fiquemos com a cruz.

A eleição de um papa norte-americano é, sem dúvida, um sinal que merece atenção. Mas a Igreja não foi chamada para ser comentarista de geopolítica nem caçadora de símbolos secretos. Fomos chamados para ser um povo que guarda os mandamentos de Deus e tem a fé de Jesus (Ap 14:12). Um povo que proclama com poder a salvação em Cristo, chamando homens e mulheres ao arrependimento, à graça e à obediência.

A profecia de Apocalipse 13 nos alerta sobre o futuro. Mas o mandado de Mateus 28 e Apocalipse 14 nos mostra o que devemos fazer no presente.

O maior perigo hoje não é a besta, é a distração. O maior engano não é o decreto dominical, é uma igreja que conhece os sinais, mas esquece a missão. Que estejamos entre os que, vendo os sinais dos tempos, levantam os olhos, mas também arregaçam as mangas, e saem para batizar, discipular e preparar um povo para ver Jesus voltar.

A profecia é séria, mas a missão é urgente!


Julio Cesar Ribeiro é pastor e professor. Possui graduação em Teologia, Especialização em Teologia Bíblica, Mestrado em Teologia Bíblica, Mestrado em Teologia Cristã e atualmente cursa programa de Doutorado em Teologia Bíblica.

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