Quando Roma fala com sotaque americano: a eleição do Papa Leão XIV à luz de Apocalipse 13

A eleição do Papa Leão XIV à luz de Apocalipse 13

Em 8 de maio de 2025, a Igreja Católica vivenciou um marco histórico: pela primeira vez em mais de dois mil anos, um cidadão dos Estados Unidos foi eleito Papa. Robert Francis Prevost, nascido em Chicago, assumiu o nome de Leão XIV e, com isso, não apenas ocupou o trono mais influente da cristandade romana, mas também acendeu, para muitos observadores das profecias bíblicas, um sinal profético sem precedentes. À luz de Apocalipse 13, esse evento não é apenas eclesiástico, ele pode ser profundamente escatológico.

Apocalipse 13 apresenta duas bestas simbólicas que atuam em momentos distintos da história, mas cujas ações convergem no tempo do fim. A primeira besta sobe do mar (Ap 13:1-10) e representa, segundo a interpretação historicista, o papado medieval, um poder político-religioso que dominou a Europa durante mais de um milênio e perseguiu os santos do Altíssimo. A segunda besta, que sobe da terra (Ap 13:11-18), é identificada como os Estados Unidos da América, um poder que emerge em cenário relativamente despovoado e se destaca inicialmente por seus princípios de liberdade civil e religiosa, mas que gradualmente fala como dragão, tornando-se perseguidor.

A expressão “subiu do mar”, segundo Apocalipse 17:15, indica um território densamente povoado, ou seja, a Europa ocidental, berço do papado. Já “subir da terra” sugere um local pouco habitado, adequado para descrever o surgimento dos Estados Unidos no século XVIII. Enquanto a primeira besta recebe poder do dragão (Satanás, cf. Ap 12:9), persegue os santos, blasfema contra Deus e domina por 42 meses (1260 anos proféticos de 538 a 1798), a segunda besta promove uma imagem da primeira e impõe uma adoração coercitiva, resultando na imposição da “marca da besta”, isto é, a observância forçada do domingo em oposição ao sábado bíblico.

O que, então, significa a eleição de um Papa oriundo justamente da nação que representa a segunda besta? A resposta pode estar na própria natureza simbólica da profecia. Pela primeira vez, o líder da besta do mar possui a nacionalidade da besta da terra. Esse fato, por si só, não cumpre diretamente a profecia, mas pode ser interpretado como um marco profético de convergência. As duas bestas de Apocalipse 13, até então distintas em seus símbolos e identidades, agora se entrelaçam numa realidade histórica: o líder religioso global do catolicismo, o sistema identificado profeticamente com Roma, fala agora com sotaque americano, vem da terra e não do mar, e carrega consigo uma cosmovisão moldada por décadas de convivência com o protestantismo, o secularismo e o pragmatismo político dos Estados Unidos.

Historicamente, o papado foi um poder eminentemente europeu. A sucessão dos pontífices era marcada por nomes italianos ou, mais recentemente, europeus como João Paulo II (polonês), Bento XVI (alemão) e Francisco (argentino, mas de formação italiana). A eleição de um Papa norte-americano rompe com essa tradição e representa um gesto ousado da cúria romana em direção a uma nova geopolítica eclesiástica. Robert Prevost, além de cidadão norte-americano, tem forte experiência missionária na América Latina, especialmente no Peru, onde foi bispo e recebeu cidadania. Em 2023, foi nomeado prefeito do Dicastério para os Bispos e criado cardeal. Sua eleição pode ser lida como tentativa de unir o mundo anglo-saxão ao latino em torno de um centro espiritual comum.

No entanto, para os leitores atentos do Apocalipse, essa união aponta para algo mais profundo. Apocalipse 13:12 afirma que a besta da terra “exerce todo o poder da primeira besta na sua presença e faz com que a terra e os que nela habitam adorem a primeira besta”. Em outras palavras, os Estados Unidos se tornariam os promotores da autoridade do papado no tempo do fim. Com um Papa norte-americano, essa colaboração pode deixar de ser apenas uma influência política indireta para se tornar uma convergência real de identidade e missão.

Do ponto de vista histórico e arqueológico, a identificação do papado com a primeira besta encontra respaldo na transição do poder romano pagão para o cristianismo institucionalizado. Inscrições latinas datadas do século VI d.C., encontradas em Roma, atestam o uso de títulos imperiais pelos bispos de Roma, como “Pontifex Maximus”, anteriormente reservado aos imperadores. O Édito de Justiniano (533 d.C.), reconhecendo o bispo de Roma como “cabeça de todas as igrejas”, e a queda dos ostrogodos em 538 d.C. marcam o início do domínio papal. Esse domínio termina simbolicamente em 1798, com a prisão do Papa Pio VI por ordem de Napoleão, cumprindo assim os 1260 anos proféticos.

Por outro lado, os Estados Unidos, surgidos com base em princípios iluministas e protestantes, foram pioneiros na separação entre Igreja e Estado. A Constituição de 1787 e a Primeira Emenda garantem liberdade religiosa. No entanto, ao longo da história americana, movimentos religiosos conservadores já tentaram impor legislações baseadas em princípios religiosos, como as chamadas Sunday Laws no século XIX. A arqueologia cultural americana, incluindo documentos jurídicos e jornais históricos, evidencia a tensão entre liberdade e imposição religiosa, um terreno fértil para o cumprimento da profecia da segunda besta.

Teologicamente, a profecia alerta que essa segunda besta “falará como dragão”, ou seja, usará o poder coercitivo para impor leis religiosas, promovendo a “imagem da besta” e exigindo adoração (Ap 13:15). A imagem da besta é a repetição do modelo medieval de união entre Igreja e Estado, agora promovida em solo americano. A marca da besta, por sua vez, é a observância forçada do domingo, instituída por autoridade humana em lugar do sábado, que é o selo do Deus Criador (Êx 20:8-11; Ap 14:7).

Nesse contexto, a eleição de um Papa americano pode funcionar como catalisador simbólico e político para o cumprimento final dessa profecia. Um líder que une em si as características de ambas as bestas, autoridade religiosa global e identidade cultural americana, está posicionado de maneira estratégica para facilitar o diálogo inter-religioso, promover legislações universais sob a égide da moral cristã e favorecer uma união profética entre protestantismo apóstata, espiritismo e catolicismo, como previsto em O Grande Conflito (cap. 36).

Portanto, a eleição de Leão XIV não é apenas um evento católico, mas um sinal escatológico. Ela mostra que o tempo do fim está se estreitando e que a profecia bíblica está se cumprindo diante de nossos olhos. Quando Roma fala com sotaque americano, o mundo deve abrir os olhos. O dragão encontrou sua voz. E o povo de Deus é chamado a permanecer fiel, guardar os mandamentos de Deus e a fé em Jesus (Ap 14:12), mesmo diante da pressão final que logo se levantará contra os que se recusarem a receber a marca da besta.

Referências:

  • Bíblia Hebraica Stuttgartensia (BHS)
  • Novum Testamentum Graece Nestle-Aland 28ª edição (NTG28)
  • White, Ellen G. O Grande Conflito. CPB, 2012.
  • Bacchiocchi, Samuele. From Sabbath to Sunday. Biblical Perspectives, 1977.
  • Maxwell, C. Mervyn. God Cares: Vol. 2. Pacific Press, 1985.
  • Knight, George R. Apocalipse: Revelações de Esperança. CPB, 2003.
  • Arquivos do Vaticano: Codex Justinianus, edições diplomáticas.
  • Documentos históricos da Constituição dos Estados Unidos e das Leis Dominicais estaduais.
  • Cadenaser, CNN Brasil e outros veículos (8 de maio de 2025).

Julio Cesar Ribeiro é pastor e professor. Possui graduação em Teologia, Especialização em Teologia Bíblica, Mestrado em Teologia Bíblica, Mestrado em Teologia Cristã e atualmente cursa programa de Doutorado em Teologia Bíblica.

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