O poder das palavras no trato com alunos com deficiência

Introdução
Vivemos em uma época em que a inclusão deixou de ser apenas um conceito pedagógico para se tornar um imperativo ético, legal e, acima de tudo, espiritual. No contexto da educação cristã, não se trata apenas de aceitar alunos com deficiência ou transtornos, trata-se de reconhecê-los como plenamente humanos, criados à imagem de Deus (Gênesis 1:26-27), dignos de respeito, atenção e amor.
Infelizmente, ainda ouvimos expressões em ambientes escolares, inclusive de parte de alguns educadores cristãos, que ferem profundamente alunos e suas famílias: “Esse aluno é louco”, “Ele tem problema”, “Não dou conta desse tipo”. Essas falas não são apenas eticamente condenáveis, mas biblicamente incoerentes.
A Bíblia e o valor incondicional do ser humano
A Escritura é clara ao afirmar que o valor de uma pessoa não está em sua performance cognitiva, física ou emocional, mas em sua identidade diante de Deus. O Salmo 139:13-14 declara:
“Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu Te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável.”
Aqui, a singularidade humana é exaltada como obra de Deus, mesmo antes do nascimento.
Quando Jesus disse: “Deixai vir a mim os pequeninos” (Marcos 10:14), Ele não estava impondo condições. Não exigiu que fossem bem-comportados, que tivessem algum padrão de normalidade. Ele os acolheu, como são. O Mestre nunca rotulou ninguém de “louco” ou “problemático” como forma de desprezo. Ao contrário, Ele curava, acolhia, tocava e dava valor, inclusive àqueles que a sociedade marginalizava.
O perigo das palavras
Provérbios 18:21 afirma: “A morte e a vida estão no poder da língua.” Em sala de aula, essa verdade é ainda mais contundente. Professores não apenas ensinam conteúdos, mas constroem (ou destroem) identidades. Um aluno chamado de “louco” internaliza essa palavra como identidade. Uma criança com dislexia ou TDAH que é constantemente taxada como “bagunceira” pode desistir de aprender. Isso não é apenas mau trato. É antipedagógico. E, sobretudo, é antibíblico.
Jesus nos ensinou que “pelas tuas palavras serás justificado, e pelas tuas palavras serás condenado” (Mateus 12:37). Palavras pesam. Palavras constroem mundos ou destroem futuros. Por isso, educadores cristãos devem ser os primeiros a refletir sobre o uso da linguagem, especialmente ao se referirem aos alunos mais vulneráveis.
Uma ética do cuidado inclusiva
A ética do Reino de Deus é a do cuidado com o mais fraco, com o invisibilizado, com aquele que depende da sensibilidade alheia. Em 1 Coríntios 12, Paulo fala dos membros do corpo de Cristo e diz que aqueles que parecem mais fracos são “indispensáveis” (v. 22). Na pedagogia cristã, isso deveria se traduzir em cuidado redobrado, atenção e preparo específico para lidar com alunos com deficiência.
Educar com inclusão é um ato de fé. É acreditar que há propósito até mesmo nas limitações. É olhar o estudante não como um “desvio” da norma, mas como alguém que reflete uma dimensão da imagem de Deus que talvez só ele possa revelar.
Caminhos práticos
- Revisar a linguagem: Trocar rótulos por nomes. Evitar diagnósticos informais e expressões depreciativas. Cada palavra deve carregar empatia.
- Buscar formação: Um professor cristão comprometido com o Reino busca compreender o que não conhece. Aprender sobre TDAH, TEA, deficiência física e sensorial não é apenas uma questão técnica — é um ministério.
- Ouvir e acolher: Dar voz ao aluno. Escutar a família. Não julgar pela aparência ou comportamento, mas perguntar antes de concluir.
- Ser intencionalmente inclusivo: Planejar estratégias que favoreçam a todos, e não apenas os “normais”. A inclusão se dá na intenção, não no improviso.
Conclusão
A escola cristã deve ser o lugar mais seguro do mundo para um aluno com deficiência ou transtorno. Se ele não é acolhido ali, onde será? A inclusão não é uma concessão. É uma missão. E se não for com amor, não é com Jesus.

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